Dona Maria José tem 63 anos e passou a maior parte da vida acordando antes do sol para buscar água. A fonte ficava a dois quilômetros de casa, num caminho de terra que virava lamaçal no inverno e poeira no verão. Ela carregava baldes. Depois, quando os filhos cresceram, eles carregaram. Era assim há décadas no distrito de Lagoa Seca, no interior do Ceará.
Hoje, Dona Maria José abre uma torneira. A água chega limpa, tratada, direto da cozinha. Não é mágica — é o resultado de três anos de organização comunitária, captação de recursos e muito trabalho voluntário.
O problema que o Estado não resolveu
O acesso à água potável é um direito constitucional no Brasil. Na prática, milhões de brasileiros — especialmente no semiárido nordestino — ainda dependem de fontes precárias, cisternas individuais ou carros-pipa que chegam de forma irregular. Em Lagoa Seca e nos dois distritos vizinhos, Pedra Branca e Sítio Novo, a situação era assim há pelo menos quarenta anos.
Promessas de governos estaduais e municipais se acumularam. Obras foram anunciadas, algumas começaram, nenhuma foi concluída. Em 2019, a comunidade decidiu que não esperaria mais.
"A gente esperou muito tempo. Chegou uma hora que ficou claro que ninguém ia resolver por nós. Então a gente resolveu."
— Seu Zé Augusto, coordenador da associação comunitária
Como se organizaram
A associação comunitária dos três distritos, que existia no papel há anos mas funcionava de forma irregular, foi reativada. Eleições foram realizadas, uma nova diretoria tomou posse e o primeiro passo foi fazer um diagnóstico real da situação: quantas famílias, qual a distância das fontes, quais os recursos disponíveis.
O resultado foi apresentado a uma ONG de desenvolvimento rural que atua no semiárido, que ajudou a elaborar um projeto e a captar recursos junto a fundações privadas. No total, foram levantados R$ 380 mil — uma quantia que, para os padrões de obras públicas, seria considerada irrisória, mas que, gerida pela própria comunidade, foi suficiente.
A construção levou dezoito meses. Boa parte da mão de obra foi voluntária — moradores que trabalharam nos fins de semana e nos períodos de menor atividade agrícola. Um engenheiro civil da região, que cresceu em Lagoa Seca e mora hoje em Fortaleza, acompanhou o projeto de forma pro bono.
O resultado
Hoje, o sistema de abastecimento atende 2.340 famílias nos três distritos. A água é captada de um açude, tratada em uma pequena estação construída pela comunidade e distribuída por uma rede de tubulações. Uma taxa mensal de R$ 12 por família cobre os custos de manutenção e o salário de dois funcionários contratados localmente.
O projeto ganhou um prêmio de inovação social em 2024 e foi visitado por representantes de outras comunidades do semiárido que querem replicar o modelo. Dona Maria José não sabe direito o que é um prêmio de inovação social. Mas sabe o que é abrir uma torneira e ver água limpa sair.