Por quase dez anos, o terreno na esquina da Rua das Acácias com a Avenida Progresso, no bairro Jardim Esperança, em Santo André, foi um problema. Primeiro virou depósito irregular de entulho. Depois, ponto de descarte de lixo. Em alguns períodos, chegou a ser usado para atividades ilícitas que os moradores preferem não detalhar. A prefeitura foi acionada várias vezes. Nada aconteceu.
Em março de 2024, a associação de moradores do bairro decidiu agir. "A gente estava cansado de reclamar e não ver resultado. Então resolvemos fazer nós mesmos", conta Dona Conceição Aparecida, 58 anos, presidente da associação há três anos.
O processo
O primeiro passo foi regularizar a situação do terreno. Descobriu-se que ele pertencia a um espólio — o proprietário original havia falecido sem deixar herdeiros identificados. Após meses de burocracia, a associação conseguiu um termo de cessão de uso temporário junto à prefeitura.
Com o terreno regularizado, veio o projeto. Um arquiteto voluntário, morador do bairro, desenhou uma praça simples: área verde, bancos, iluminação e um espaço para crianças. O orçamento foi de R$ 45 mil, captados em uma campanha de financiamento coletivo que mobilizou moradores, comerciantes locais e ex-moradores do bairro que vivem em outras cidades.
A obra durou dois meses. Nos fins de semana, grupos de moradores se revezavam na limpeza, no plantio e na pintura. "Tinha gente de 8 a 80 anos trabalhando", lembra Dona Conceição, com orgulho.
"Quando a praça ficou pronta, a gente ficou em silêncio por um momento. Era difícil acreditar que aquele lugar era o mesmo terreno cheio de lixo que a gente olhava todo dia."
— Seu Carlos, 71 anos, morador há 35 anos do bairro
O que mudou
A praça foi inaugurada em outubro de 2024. Desde então, tornou-se o centro da vida social do bairro. Às tardes, crianças brincam no espaço infantil. Nos fins de semana, famílias se reúnem nos bancos. Uma vez por mês, a associação organiza uma feira de produtos artesanais e alimentícios produzidos pelos próprios moradores.
O impacto foi além do espaço físico. A associação de moradores, que antes tinha dificuldade em mobilizar pessoas para suas reuniões, hoje conta com participação regular de mais de cem famílias. "A praça mostrou para as pessoas que é possível mudar as coisas quando a gente se une", diz Dona Conceição.