Toda terça-feira de manhã, um ônibus amarelo estaciona na Praça do Trabalhador, no bairro de Jardim São Paulo, na zona norte de Recife. As portas se abrem e, em minutos, crianças de todas as idades aparecem de todos os lados. Elas sabem o que vem a seguir: hora de escolher um livro.
O projeto Leitura em Movimento existe desde 2019. Nasceu de uma ideia simples — se as crianças não podem ir à biblioteca, a biblioteca vai até elas — e cresceu até se tornar uma das iniciativas culturais mais reconhecidas da cidade.
Como funciona
O ônibus, adaptado com estantes, tapetes coloridos e uma pequena área de leitura, percorre seis bairros da periferia recifense ao longo da semana. Cada visita dura cerca de duas horas. As crianças podem ler no próprio ônibus ou levar livros emprestados para casa, com prazo de devolução de duas semanas.
O acervo tem mais de quatro mil títulos, entre literatura infantil, juvenil e adulta. Há também gibis, revistas e materiais de referência. Tudo foi doado — por escolas particulares, editoras, livrarias e pessoas físicas que responderam a campanhas nas redes sociais.
A equipe é formada por três educadores e dois motoristas. Todos recebem salário — o projeto aprendeu cedo que voluntariado não é sustentável no longo prazo. O financiamento vem de uma combinação de editais públicos, doações de empresas e uma campanha de financiamento coletivo que acontece todo ano.
"Tem criança que nunca tinha pegado num livro antes. A primeira vez que elas folheiam um livro de verdade, com ilustrações bonitas, você vê nos olhos delas que algo muda."
— Professora Joana, educadora do projeto
Os números
Desde 2019, o projeto atendeu mais de quatro mil crianças e realizou mais de 800 visitas aos bairros. O índice de devolução dos livros emprestados é de 94% — um número que surpreende quem imagina que comunidades de baixa renda não cuidam de livros. "As crianças tratam os livros com um cuidado que às vezes não vemos em escolas particulares", diz a professora Joana.
O projeto está em processo de expansão. Com um segundo ônibus, será possível dobrar o número de bairros atendidos. Uma campanha de financiamento para adquirir o veículo está em andamento.
Na Praça do Trabalhador, enquanto as crianças escolhem seus livros, uma menina de uns oito anos senta no tapete do ônibus e começa a ler antes mesmo de sair. Ela não levanta os olhos do livro até a professora Joana avisar, gentilmente, que está na hora de ir embora.